Facção utiliza portos brasileiros para exportar drogas e intensifica disputas territoriais, principalmente em regiões do Rio de Janeiro.
A organização criminosa do Comando Vermelho (CV) foi o que motivou a megaoperação nos complexos da Penha e do Alemão nesta terça-feira (28), no Rio de Janeiro. O confronto se tornou o mais letal da história da cidade e já passa de 100 mortos.
O CV é atualmente uma das maiores facções criminosas do país e surgiu na década de 70, dentro do sistema prisional do Rio de Janeiro. Com os anos, a facção ampliou sua presença no território nacional e até internacional. Estudos apontam que a organização tem foco no mercado europeu de cocaína.
Segundo estudo feito por Roberto Uchôa, Policial federal e Conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Comando Vermelho tem aproveitado a desarticulação de lideranças milicianas para conquistar novos territórios estratégicos, principalmente na Baixada Fluminense e no Leste Metropolitano do Rio. Esta expansão está diretamente vinculada à estratégia de intensificar o tráfico de entorpecentes para a Europa, onde o preço do produto pode atingir dezenas de milhares de euros por quilo.
O levantamento também aponta que o CV utiliza a extensa costa brasileira e importantes portos como Santos, em São Paulo, e Paranaguá, no Paraná, para escoar drogas para mercados internacionais, aproveitando falhas institucionais que transformam o país em rota central do tráfico global.
O fortalecimento do CV ocorre em meio ás lacunas deixadas pelo estado brasileiro e à alta rentabilidade do narcotráfico. A facção mantém conexões com guerrilhas colombianas e produtores de drogas na Bolívia, no Peru e no Paraguai, que fornecem entorpecentes posteriormente enviados para África, Europa e Ásia.
Surgimento na ditadura
O Comando Vermelho surgiu do contato entre presos políticos e criminosos comuns durante a ditadura militar brasileira, nas penitenciárias do Rio. Este encontro resultou na formação de um grupo focado no narcotráfico que se estabeleceu em áreas periféricas e favelas com pouca presença estatal, implementando um sistema de "justiça paralela".
O CV consolidou seu poder através do controle violento de territórios, enfrentando grupos rivais e forças policiais. A facção expandiu-se para além do Rio de Janeiro, avançando para outras regiões do Brasil, onde passou a competir com gangues locais e com o PCC. Na região Norte e Nordeste, o grupo aproveitou rotas fluviais e estabeleceu novas bases de distribuição.
A atuação do CV e outras facções como o PCC ocorre tanto no Rio de Janeiro quanto em outros estados brasileiros e no cenário internacional. Autoridades de Minas Gerais e da Bahia relatam que nos últimos anos o CV e o Terceiro Comando Puro (TCP) conquistaram territórios anteriormente controlados por facções ligadas ao PCC.
Estudos realizados pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI/UFF) e pelo Instituto Fogo Cruzado documentam um crescimento expressivo de todas essas organizações entre 2008 e 2023. As milícias destacam-se por sua expansão silenciosa, sustentada pela cobrança de taxas e pela exploração de serviços clandestinos.
Especialistas em segurança pública recomendam intervenções mais inteligentes e coordenadas, com investimento em análise de dados, regulação de serviços urbanos e combate efetivo à corrupção nas forças de segurança.
A história do CV demonstra que a ausência de políticas integradas de segurança e desenvolvimento sustenta um ciclo de violência que se realimenta constantemente.
